Acompanhamento Terapêutico: meu consultório é a rua, a praia, a fazenda… | Por Isabel Castelo Branco

As doenças mentais causam um sofrimento psíquico intenso, podendo ocasionar o isolamento social do doente e grandes dificuldades para a condução de sua vida e projetos pessoais. Sendo mais um recurso no tratamento das crises agudas, ou mesmo em períodos crônicos de angústia e estagnação, o Acompanhamento Terapêutico (AT) surge como uma forma distinta de atenção e cuidado.

O trabalho clínico de AT se desenvolve através de encontros programados, cujo campo de ação é o cotidiano dos sujeitos acompanhados. Cada projeto terapêutico é elaborado de maneira singular, a partir das demandas de cada paciente, de sua família e é, em geral, indicado pelos profissionais que o acompanham (médico, psicólogo, dentre outros). A duração e frequência dos encontros se definem em função de cada caso. Podemos dizer, então, que o AT atua como facilitador no processo de recuperação do paciente, que poderá encontrar uma maneira de conduzir sua vida com mais qualidade, para além da doença.

A aliança formada entre o AT e os tratamento convencionais, seja internação, hospital-dia ou ambulatório, favorecem a construção de uma linha de intervenções terapêuticas baseada no cuidado compartilhado. Busca-se detectar as necessidades dos pacientes e, a partir daí, criar estratégias para que ele se aproprie e faça uso de tudo aquilo que o cerca, dos espaços de convivência familiar e social, das atividades de lazer ou compromissos profissionais que sempre fizeram parte do seu dia-a-dia, mas dos quais se encontra afastado por consequência do transtorno mental. Nessa perspectiva, o AT contribui para a ressiginificação da prática terapêutica convencional, que em muitos casos permanece presa à modelos tradicionais mais engessados.

É preciso ter em mente que a doença mental se relaciona com aspectos sociais, culturais e individuais, que estão em constante mudança. Novos paradigmas aparecem a todo o momento, e no diálogo entre a prática da clínica convencional e o sofrimento psíquico foi criado um abismo. A intervenção do AT é uma prática que se dá através de ações não burocráticas, de uma forma bem peculiar: sem sala, sem teto, às vezes sem família, sem  perspectivas – como diz Caetano Veloso, “sem lenço e sem documento”, apenas com aquele sujeito. Nesse contexto, a estratégia do Acompanhamento Terapêutico convoca o profissional a ser mais presente, intenso e adaptativo no cuidado, posicionando o paciente e sua realidade no centro das ações, ajustando-se às suas demandas, o que geralmente não acontece nos tratamentos institucionais convencionais.

As atribuições são as mais diversas, variadas e criativas possíveis. Não se trata apenas de “passar o tempo” com o paciente, mas de resgatar a sua história e a favorecer sua autonomia, sua capacidade de fazer escolhas, restituindo-o, assim, da sua dimensão enquanto cidadão. O Acompanhamento Terapêutico permite redescobrir interesses pessoais, recomeçar construção de um projeto de vida, reformular rotinas que permitam a criação de tarefas e relações com o entorno, incentivar a formação de grupos que lhe assegurem um lugar e a experiência de compartilhar objetivos. Nessa proposta, o que se oferece é a possibilidade do doente falar sem ser rejeitado, de ser amparado.

Os momentos vivenciados são únicos, inusitados. A disponibilidade e a inventividade estarão sempre a postos. Nós, ATs, vamos caminhando contra o “vento” do preconceito e do estigma, ampliados pela ignorância do senso comum. O que realmente sustenta este trabalho é o vínculo que se estabelece entre o acompanhado e o acompanhante. Como efeito, pode-se esperar alguma autonomia e o resgate dos vários papéis sociais perdidos por esse indivíduo. Mas, tudo isso torna-se inviável se o profissional não se disponibilizar a lidar com a complexidade, com os desafios e riquezas deste trabalho. É preciso uma “paixão” especial pelo cuidar do outro, não existindo a possibilidade de experimentar ser AT. Ou se é, ou não.

 

  • Isabel Castelo Branco é Coordenadora da Residência Terapêutica da Holiste e Acompanhante Terapêutico.

 

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