Atividade externa na promoção da Saúde e Autonomia

Como as saídas terapêuticas podem promover autonomia, retomada da cidadania e retificação da posição de doente dos pacientes?

Em um serviço aberto, como Hospital Dia em Saúde Mental, utilizamos de atividades externas como instrumentos de promoção a saúde. As atividades externas propõem um uso do território a fim de resgatar as relações sociais que foram perdidas pelo adoecimento psíquico. Consideramos, também, que o trabalho no território é um pressuposto para a consolidação da mudança de paradigma na atenção à saúde mental, visto que desloca as intervenções do espaço insti­tucional para o cuidado do indivíduo na comuni­dade. Consequentemente, este fato dimensiona a construção de novas relações sociais entre todos os sujeitos envolvidos, produzindo modificações nos contextos onde se faz presente ainda uma cultura de exclusão. Nesse sentido, consideramos que a construção cotidiana de novas relações sociais ocorre dentro dos espaços comum a todos.

O território e a reabilitação psicossocial são importantes referenciais analíticos em nossa investigação, pois apresentam aspectos que permitem problematizar as condições em que estão inseridos os sujeitos, e essencialmente potencializar a discussão acerca das ações no terri­tório em saúde mental.

O espaço social que podemos denominar como território, é uma realidade relacional, composta, por um lado, pelos objetos naturais, geográficos, e, por outro, pela sociedade em movimento. A dinamicidade corresponde às inter-relações estabelecidas entre os indivíduos, mediadas pelos aspectos cultural, social, legislativo, político, econômico e social, produzindo transformações, as quais ocorrem através do cenário natural e da história social inscrita e refletida nos modos de viver e no que é percebido e compreendido acerca do lugar (Santos, 2007).

A Reabilitação Psicossocial é um processo composto por um conjunto de estratégias com a fina­lidade de aumentar as oportunidades de troca de recursos e de afetos. Dado que a Reabilitação Psicossocial se dá em essência por meio de práticas territoriais, aposta­mos na importância do uso cada vez mais frequente do território por parte do nosso serviço de saúde mental, com o objetivo de transformação cons­ciente do cotidiano. O cotidiano é o lugar das pequenas revoluções, das transformações que induzem a processos de apropriação, de condução da vida, traduzidas em autonomia, liberdade de escolha, flexibilidade nos padrões de pensamentos, sentimentos e ações.

 

EXPERIÊNCIA COM O USO DO TERRÍTORIO

Este trabalho visa relatar a experiência que o uso do território trouxe para os pacientes e o serviço, como também, das atividades externas como ida a praia, clubes, shopping, teatro e etc. O serviço é um Hospital Dia em saúde mental, que fica localizado no bairro da Pituba, em uma rua comercial arrodeado de vários outros serviços como clínica de estética, clínica de fisioterapia, bares, restaurantes, praças, mercado, hotéis dentre outros. Foi possível mapear esse território através de sua exploração pelos sujeitos que antes eram tidos como incapazes de transitar nele. Estabelecer uma relação direta e promover ação nesse território, permitiu um resgate da autonomia e dos direitos enquanto cidadãos.

A atividade externa é compreendida como uma possibilidade de cuidado na medida em que permite uma prática terapêutica orientada para a criação de estratégias voltadas para a convivência e o estabelecimento de redes de afetos e de sociabilidades. O uso do território, nessas atividades externas, é efetivo porque é onde estão os recursos. Os recursos são, sobretudo, as pessoas, os trabalhadores, os familiares e a comunidade que também comporta os recursos materiais (Saraceno, 1999). Além disso, a possibilidade de estar no ambiente de vida do indivíduo proporciona a compreensão de sua existência social, concreta e complexa, e permite estimulá-lo como sujeito ativo, dentro e fora do serviço (Quintas, 2007). Assim, a noção presente de território nos discursos é a de um espaço potencializador das intervenções dos trabalhadores.

 

DEFININDO  TERRITÓRIO

Conceituar o território como o lugar de vida, das relações sociais e dos recursos disponíveis permite o deslocamento de uma das questões importantes que se refere ao cuidado, o qual deixa de ser focado na doença e passa a ser orientado também para o “sujeito que sofre e ao modo de sofrer que constrói a partir da sua relação com o social” (Leal e Delgado, 2007, p. 144).

Ao utilizarmos uma sorveteria como recursos terapêutico, pudemos construir uma relação de troca entre os sujeitos do serviço e a comunidade. Pudemos trabalhar as escolhas, o se posicionar enquanto sujeito de direito, o manejo com o dinheiro, estabelecimento de novos vínculos, quebra de paradigmas sobre a discriminação de si e principalmente sustentar seu próprio desejo. O investimento dos técnicos nessas atividades proporciona a expressão, a organização pessoal, a disciplina, a construção do companheirismo e a troca de conhecimentos para fortalecer os vínculos.

Nas atividades externas, que requer mais atenção e cuidado, tem nos ensinados que a simplicidade das vivências, trazem ricos resultados terapêuticos. A ida a uma praia, cinema, teatro ou clube por exemplo, tem resgatado memórias e vivências cheias de afetos que permitem os técnicos a trabalharem com conteúdos que jamais tinham sido trazidos, mas que devido a contingência daquele lugar, se permitiram a compartilhar e resignificar suas lembranças.

Nessa perspectiva, quando quisermos definir qualquer pedaço de território, devemos levar em conta a interdependência e a inseparabilidade entre a materialidade, que inclui a natureza, e o seu uso, que inclui a ação humana. Portanto, o território é um recorte ou fração do espaço qualificado pelo sujeito. Mapear esses espaços e circular por eles, nos permite elaborar um discurso, contar e construir histórias ou, nas palavras do Wood, narrativas. Fazer uma cartografia do cotidiano dos pacientes, significa construir “um atlas de uma vizinhança que você pode ler como se fosse um romance” (p.9). Para Wood, esse atlas “está arraigado em um sentido profundo de lugar… repleto de ricos caracteres humanos, abundante de eventos” (p.9). Esses territórios, inserido e permanecido nas vidas desses usuários, tornam-se verdadeiros poemas e formas criativas de arte, que buscam celebrar as coisas do cotidiano e procuram representar o que fica invisível ou o que é normalmente deixado de fora do mapa.

*Artigo apresentado por Ueliton Pereira,  coordenador do Holiste Dia, no 5º Congresso Brasileiro de Saúde Mental (SP, maio de 2016).

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Referências
LEAL, E. M.; DELGADO, P. G. G. Clínica e cotidiano: o Caps como dispositivo de desinstitucionalização. In: PINHEIRO, R. et al. (Org.). Desinstitucionalização da saúde mental: contribuições para estudos avaliativos. Rio de Janeiro: CEPESC, 2007. p. 137-154.
QUINTAS, R. M. A ação territorial do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) enquanto indicativo de sua natureza substitutiva. 2007. Dissertação (Mestrado em Ciências) – Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2007
SANTOS, M. O espaço do cidadão. 7. ed. São Paulo: EdUSP, 2007.
SANTOS, M. Metamorfoses do espaço habitado: fundamentos teóricos e metodológicos da geografia. 6. ed. São Paulo: EdUSP, 2008.
SARACENO, B. Libertando identidades: da reabilitação psicossocial à cidadania possível. Belo Horizonte: Te Cora, 1999.
WOOD, Denis. Introducing the Cartography of Reality. In: LEY, David; SAMUELS, Marwyn. (Orgs.) Humanistic Geography: Prospects and Problems. Chicago.

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