Os impasses na adolescência hoje | por Cláudio Melo.

 

Na adolescência, o jovem desperta para novos laços sociais. Ele se coloca no seguinte impasse: tentar manter o amor terno e a proteção da estrutura familiar, mesmo ameaçando sua independência, ou arremete-se no amor sexual e em novos vínculos sociais para além da família, o que pode representar o rompimento com amor parental, acompanhado de maior autonomia.

É preocupante o número de adolescentes com transtornos comportamentais e de personalidade. Fenômenos psicopatológicos que podem estar, em parte, relacionados com mudanças na estrutura familiar contemporânea que dificultam a superação dos dilemas juvenis apontados acima. Na psicanálise lacaniana, esse quadro é conhecido como “declínio da função paterna”.

Essa função não se refere exclusivamente à relação com a figura do pai, mas a uma série de condições que norteiam as relações sociais do indivíduo e a formação de sua personalidade e autonomia. Ela funciona como um guia subjetivo que nos auxilia nas adversidades da vida: uma nota baixa, a perda de um ente querido, uma rejeição amorosa, etc. Por outro lado, a fragilidade dessa função pode deixar o sujeito “desbussolado” na imensa selva da vida. Assim, a função paterna funciona como defesa contra a angústia.

Nesse contexto, observa-se uma série de sintomas onde prevalecem os atos e faltam as palavras: o abuso de drogas, transtornos alimentares, auto e heteroagressividade, hiperatividade, dentre outros, que trazem a rubrica da impulsividade e do rompimento brusco dos laços familiares, sem a contrapartida da autonomia. São sintomas onde predominam a saída pela patologia e as identificações de massa: grupos de adictos, sites de anorexia/bulimia, etc. Alternativas problemáticas ao declínio da função paterna.

Muitos dos novos sintomas na adolescência são formas precárias de socialização. O “eu sou bulímica”, frase título de diversos blogs, torna clara a identificação coletiva de jovens a uma patologia psiquiátrica, podendo ocultar os impasses de uma adolescente com a sua sexualidade ou exigências sociais relacionadas ao seu corpo. Essa solução massificada, no entanto, não garante o fim desses impasses.

Os livros de autoajuda, a educação e as terapêuticas pré-formatadas não são eficazes para esses jovens, uma vez que recorrem a respostas prontas.  Toda a sorte de manuais, antes de incluir os sujeitos no laço social, perpetuam sua alienação. Talvez, a solução mais eficaz seja o encontro inusitado com o que há de mais pujante na invenção particular de cada adolescente, empoderando-lhe em suas conquistas individuais. Para tal, a educação e os tratamentos terapêuticos não podem ser instrumentos correcionais ou moralistas.

* Cláudio Melo é mestre em psicologia e coordena o serviço de Acompanhante Terapêutico da Holiste.

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