Saúde Mental na infância e adolescência

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Transtornos mentais que surgem na primeira fase da vida podem atrapalhar o desenvolvimento da criança e do adolescente. Perceber os sintomas e encaminhar para um acompanhamento adequado é essencial para estabelecer um diagnóstico correto e evitar prejuízos futuros.

Apesar de não ser tão comum, alguns transtornos mentais podem surgir ainda na infância. Ao perceber mudanças bruscas de comportamento ou dificuldades de aprendizado na criança, o ideal é que ela seja avaliada por um especialista. Essa indicação pode ser feita pela escola, pela família, pelo pediatra ou médico de outra especialidade, que podem perceber os sinais e indicar o atendimento especializado.

Marcelo Machado de Almeida, psiquiatra infantil da Holiste, alerta que quanto mais precoce o diagnóstico, melhor o resultado do tratamento. “Muitas vezes, quando a doença chega à vida adulta sem o tratamento adequado, os prejuízos são irreversíveis”. Na maioria dos casos, os fatores de risco que desencadeiam os sintomas são de origem genética, congênita ou psicológica.

Os transtornos mais comuns nessa fase são o de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH); de conduta (desafiador e de oposição); e de aprendizagem em geral. Segundo o especialista, há ainda uma grande prevalência de transtornos de ansiedade e de humor, e na adolescência começam a surgir transtornos mentais decorrentes do uso/abuso de álcool e outras drogas.

Dr. Marcelo adverte, no entanto, que nesse período a personalidade do indivíduo ainda está em formação. Por isso, é importante ficar atento, mas com um olhar de acompanhamento e não de patrulha, evitando um maior afastamento e prejuízo na relação de confiança. “O diagnóstico tende a ser feito de forma mais longitudinal. Muitas vezes, a hipótese diagnóstica muda conforme a criança vai crescendo e demonstrando outros sinais, que direcionam para uma coisa distinta do que tínhamos pensado inicialmente”, detalha.

Nadja Pinho dos Santos, psicopedagoga e musicoterapeuta do núcleo infantil da Holiste, ressalta que alguns aspectos como falta de atenção, dificuldades na linguagem escrita e na leitura, alterações de comportamento, déficit de memória, fadiga e dificuldade em organizar e executar tarefas podem ocorrer devido a questões emocionais ou sociais, e até mesmo de metodologia, mas são temporários e se ajustam com o devido tratamento. Porém, como esses sintomas também estão relacionados ao TDAH e à dislexia, se faz necessário o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar adequada para se chegar a um diagnóstico. “É muito importante o olhar atento da família para os comportamentos que são característicos da infância e da adolescência. O que deve chamar a atenção são os excessos ou as ausências de certas atitudes. Esse acompanhamento é fundamental para avaliação da equipe multidisciplinar”, orienta a terapeuta.

Outras atitudes que indicam que algo não vai bem são agressividade, gagueira, isolamento social, fobia, medo, tentativa de suicídio, depressão, transtorno alimentar, incontinência urinária e fecal. Diagnósticos como autismo e deficiência mental também estão relacionados entre as prioridades para um acompanhamento especializado.

 

Equipe especializada

Por não possuírem a mesma capacidade simbólica que um adulto, crianças e adolescentes precisam de uma atenção diferenciada. Atenta a essa necessidade, a Holiste ampliou seu núcleo de atendimento infantojuvenil e planejou um ambiente especialmente dedicado a ele em sua nova sede, com consultórios equipados especificamente para essa modalidade de atendimento e profissionais de várias especialidades, como psicólogos, psiquiatras, psicopedagogos, arteterapeutas, terapeutas ocupacionais e musicoterapeutas. O objetivo da equipe é oferecer um tratamento interdisciplinar que proporcione uma melhor qualidade de vida à criança e ao adolescente, na tentativa de evitar problemas futuros.

Os sintomas de um mesmo transtorno podem se apresentar de forma distinta para crianças e adolescentes. Por isso, é importante a avaliação de uma equipe preparada, que vai estar atenta às peculiaridades de cada faixa etária”, esclarece Dr. Marcelo.

A fala é a principal ferramenta de trabalho do tratamento, mas os instrumentos lúdicos servem de apoio e complementam a terapêutica. As crianças não costumam demonstrar os sintomas de forma direta, como uma queixa específica; mas de forma indireta, falando de si e do seu contexto, na maioria das vezes por via das brincadeiras, das artes, dos jogos e de outras expressões.

Crianças precisam se descolar dos pais, mas não é uma tarefa fácil. Por isso é importante que objetos reais e brinquedos sirvam como apoio para a passagem da dependência do outro à autonomia. Na brincadeira, eles descobrem como criar um estilo próprio, até que consigam se desvencilhar dos objetos e sustentar seu discurso pela palavra falada”, pontua Daniela Nunes Araújo, psicóloga no núcleo infantil da Holiste.

 

Música

A musicoterapia é um dos recursos utilizados pela Holiste no seu núcleo infantil. Essa técnica serve de auxílio em diversos aspectos do tratamento, como a reconstrução da identidade, integração, redução da ansiedade e construção da autoestima.

Quando chegam aos ouvidos, os sons são convertidos em impulsos que percorrem os nervos auditivos até o tálamo, região do cérebro considerada a estação central das emoções, das sensações e dos sentimentos. Os impulsos provocados pela música no cérebro repercutem em todo o corpo trazendo inúmeros benefícios.

Terapeuticamente, a música faz com que o indivíduo expresse suas ansiedades, tensões, desejos e alegrias, entrando em contato direto com as emoções e sentimentos internalizados que, muitas vezes, estão bloqueados pela inibição, pelo estresse e pela falta de estímulo. “Através da aplicação do som, do ritmo, da melodia e da harmonia, juntos ou separados, é possível desenvolver métodos com finalidades terapêuticas de ordem física, emocional e mental”, explica Nadja.

 

O ambiente adequado e o recurso lúdico

No tratamento com crianças, as brincadeiras, de um modo geral, são introduzidas antes da palavra, uma vez que os pequenos não têm a mesma desenvoltura de um adulto ou mesmo de um adolescente. Por esse motivo, é melhor deixá-los se expressarem pelos recursos lúdicos até que comecem a construir um discurso próprio. Um ambiente especializado e com recursos permite que os profissionais avaliem de que modo as crianças se comportam nos espaços, observação importante para detectar dificuldades de organização e dependência do outro para executar tarefas, por exemplo.

Nesse contexto, conforme explica Daniela, é muito importante que o consultório promova uma sensação de pertencimento e apropriação para a criança. Assim, estas ferramentas ajudam para que ela se sinta à vontade na construção de um vínculo com os profissionais, facilitando sua implicação no tratamento e retorno ao consultório. “Quando as crianças percebem um ambiente com características do seu universo, ficam curiosas, buscam os materiais, os brinquedos e se direcionam para o que mais lhes interessam. Nesse momento, iniciamos o trabalho de forma espontânea e não forçosa, pois assim elas podem escolher o que fazer e o que praticar. A partir daí é que vamos iniciar o trabalho”, esclarece.

Bonecos de pano, fantoches ou uma casinha de brinquedo são usados para representar a família; espelhos na sala permitem trabalhar questões de reconhecimento do corpo, diferenciando a própria imagem de outras – recurso bastante utilizado com autistas; argilas permitem às crianças construir, criar e se expressar de várias formas, inclusive auxiliando na dificuldade de defecar no vaso ou para tratar a incontinência fecal (encoprese), entre outros exemplos.

Livros infantis e pisos antiderrapantes também são importantes e viabilizam atividades complementares, assim como os jogos de duplas são indicados para trabalhar dificuldades de interação com o outro. A depender da faixa etária, os jogos de computador também se mostram um excelente recurso para detectar agressividade ou evolução de desenvolvimento.

 

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