Drogas e trabalho, uma relação delicada

A criminalização das drogas e a falta de investimento na prevenção e tratamento leva milhares de dependentes químicos ao afastamento da atividade laboral. Mas é possível reverter esse cenário

A dependência do álcool e de outras drogas tem elevado o número de pessoas incapacitadas para o trabalho no Brasil. Segundo informações do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), cresce o número de dependentes químicos que recebem benefício por auxílio-doença ou por invalidez. Em 2012, foram 47.839 trabalhadores afastados; em 2013, foram 52.096 e em 2014, até o mês de julho, foram 23.855 pessoas afastadas do trabalho, sendo o alcoolismo o quadro mais recorrente.

Para o psiquiatra Luiz Guimarães, especialista em dependência química, o grande problema está no espaço de tempo entre os primeiros sintomas e o início do tratamento. “As pessoas ficam muito focadas em tratar o dependente químico quando esse já é o estágio final do adoecimento. A grande maioria dos pacientes que têm problemas relacionados ao uso de drogas são abusadores. Ou seja, antes do indivíduo se tornar um dependente, ele foi um abusador. É nessa fase que devem ser tomadas as primeiras medidas. Quando o tratamento é iniciado na fase do consumo abusivo, as chances de recuperação são maiores”, afirma.

Outro erro é julgar moralmente o dependente químico, como se a dependência fosse um desvio de conduta ou falha de caráter. É preciso ter sempre em mente que o dependente é um doente, que ele está sendo acometido por um transtorno mental e que precisa de ajuda profissional especializada. A criminalização da droga contribui para que o dependente seja visto como um marginal, colocando o debate sobre a dependência química no âmbito da segurança pública, quando deveria estar relacionado ao da saúde pública. Há que se considerar as características biológicas e psicológicas do paciente, além do tipo de droga e o contexto em que se dá o uso, quebrando estigmas e elevando o nível da discussão.

Alguns fatores facilitam o consumo de drogas. Dentre aqueles relacionados ao indivíduo estão a predisposição genética, transtornos mentais associados, disponibilidade da substância, tensão, estresse e até mesmo a pressão social para o consumo. Na outra ponta, as circunstâncias laborais que favorecem o uso são trabalhos físicos rigorosos – como turnos longos e esforço repetitivo, excesso de responsabilidades, falta de reconhecimento, ausência de objetivos claros, assédio moral, entre outros. Segundo o psicólogo Pablo Sauce, a droga, de um modo geral, funciona como compensação pelo ritmo de trabalho exigido. “Não podemos vitimizar o paciente, afirmando que a culpa é da empresa, nem vê-lo como único responsável. É preciso fazê-lo reconhecer que está doente, que precisa de um tratamento especializado e que ele é o principal responsável pelo seu bem-estar”, pondera.

Diagnóstico

Para além dos prejuízos pessoais do dependente, a empresa também sofre as  consequências do problema: aumento do absenteísmo, acidentes de trabalho, queda de rendimentos, etc.. Ironicamente, são estes fatores que geralmente vão indicar que algo está errado com o indivíduo, favorecendo um diagnóstico. “O melhor ambiente para se detectar o abusador é o do trabalho, pois é onde o indivíduo passa a maior parte do seu tempo. Se existissem pessoas treinadas a notar isso precocemente, teríamos índices menores de afastamento”, acredita Guimarães.

No contexto do uso da droga, o psiquiatra identifica quatro perfis do comportamento aditivo ou dependente: experimentação sem continuidade; uso recreativo, sem causar danos a nenhum aspecto da vida; uso abusivo, quando passa a ser sistemático e causa algum tipo de prejuízo; dependente, quando o indivíduo não consegue levar uma vida funcional.

Ao contrário do que se imagina, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a maioria dos problemas relacionados ao uso indevido de substâncias psicoativas no ambiente de trabalho pode ser atribuído a usuários recreativos. “É quando o problema surge que a doença se torna visível ao outro. A empresa deve estar preparada para, a partir de um incidente de menor proporção, tomar medidas preventivas. Se o funcionário for acompanhado ainda nesta fase, existe grande chance de não se desenvolver um caso de dependência”, explica Sauce.

De modo algum a atuação da empresa deve ganhar contornos de paternalismo ou punição. Segundo Guimarães, a adoção de uma política de prevenção clara passa pelo esclarecimento. Toda a empresa deve estar envolvida, e o assunto deve ser tratado não apenas nas semanas de prevenção a acidentes de trabalho. O departamento de recursos humanos deve estar preparado para lidar com o adicto, oferecendo todo o sigilo e suporte, bem como estabelecendo prazos limites para que o funcionário procure auxílio médico.  “A família implora, os professores ensinam e os pastores pregam, mas quando o chefe diz ‘trate-se ou ponha-se na rua’ o adicto procura ajuda”, acredita.

 

Tratamentos

“Se por uma parte somos todos potencialmente adictos, cada um encontra suas soluções para controlar o vício, seja em compras, comida, amor ou drogas, cada pessoa constrói uma maneira de se livrar disso. Da mesma forma, é preciso encontrar as ferramentas para reverter os processos de dependência nos pacientes. É aí que entram os tratamentos”, esclarece Sauce.

É preciso, antes de tudo, tirar o estigma do problema. A dificuldade do tratamento é que ele envolve a responsabilidade do indivíduo. “Estamos falando de uma doença. Ninguém é culpado por ter diabetes, mas é responsável por administrar sua glicose. Da mesma forma, ninguém é culpado por ser dependente químico, mas é responsável pelas consequências do uso de drogas. É esse o raciocínio que adotamos nos tratamentos dentro da clínica”, esclarece Guimarães.

Nesse processo a presença da família é imprescindível. “Muitas vezes a família se sente impotente, já que aquele trabalhador é o provedor da casa, a autoridade familiar. O problema é global e não só da empresa ou da família. Juntos, há maior chance de reabilitação”, afirma o psiquiatra. O ideal é que se crie uma rede de ajuda ao dependente. “A questão do vício, para mim, está associada à solidão. O sujeito se sente só e precisa ser ressocializado. Nesse sentido também é preciso haver diálogo entre a clínica e a empresa”, conclui Sauce.

Nos casos mais graves, onde o indivíduo perde sua autodeterminação, torna-se agressivo, ameaça o patrimônio familiar e não consegue ser funcional no trabalho, a internação psiquiátrica é fundamental nas fases de desintoxicação e manutenção da abstinência. Depois é trabalhada a sua reabilitação, sua motivação e são traçadas estratégias de manutenção do tratamento. Casos mais simples podem ser tratados em hospital dia ou ambulatorialmente. “Estamos em um momento em que é preciso avaliar caso a caso, um olhar voltado para as particularidades. Com isso, deve-se dar lugar à singularidade de cada um, seu modo de estar no mundo. Acho que na Holiste esse traço é muito forte”, finaliza o psicólogo.

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