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NOTÍCIAS – Luto compartilhado é novo fenômeno nas redes sociais

By iwwa

December 18, 2012

IARA BIDERMAN DE SÃO PAULO

Um agora está em um relacionamento sério, outro comeu um bolo delicioso, um já vai dormir. E aquele morreu. As pessoas falam o que quiserem de suas vidas privadas nas redes sociais. Por que não falariam da morte? Porque ninguém quer ler mensagens mórbidas espremidas entre o post da balada da noite anterior e as últimas fofocas de celebridades, argumenta a colunista americana Jenna Worth, em seu blog “Digital Diary” (diário digital), publicado no site do “New York Times”. Worth vive das redes sociais, está integrada a essa vida, mas não se sente à vontade para compartilhar o luto on-line.

Já o pesquisador Alex Primo, professor de comunicação e tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, acha a coisa mais natural do mundo. “Por que a morte tem que ser privada? É uma convenção cultural. Compartilhar o luto pode ser menos estranho do que visitar um cemitério.”

Mas, para quem não é usuário pesado das redes, a internet pode não ser o melhor lugar para expor a morte. “Também acho que a internet não foi feita para transar ou arranjar namorado. Mas tem gente transando e se casando pela rede. Poderiam também trabalhar o luto virtualmente”, diz o psicanalista Oswaldo Leite Netto.

VELÓRIO SEM FIM

No mundo on-line, há lugar para expressar dor e receber mensagens de apoio. “É natural que as redes sociais sejam usadas em momentos de perda. Podem ser de grande ajuda”, diz a professora de psicologia Maria Julia Kovács, coordenadora, na USP, do laboratório de estudos sobre a morte. Como todo novo fenômeno, é difícil julgar os desdobramentos do luto on-line. “Não acredito que a internet possa ajudar nesse processo. Quando um momento fica registrado no mundo virtual, nunca pode ser apagado. Seria como um velório que não acaba nunca”, diz a psicanalista Claúdia Arbex, do Instituto Sedes Sapientae, de São Paulo, que pesquisou os lutos que não se encerram.

NEGAÇÃO

Manter páginas do morto e alimentá-las indefinidamente com fotos e mensagens, a título de homenagem, é mais problemático. “Pode ser algo alucinatório, no sentido de negar o que aconteceu. É mais impactante e mórbido receber ‘atualizações‘ de quem já morreu. Ficar nessa virtualidade borra os contornos do que é uma existência e do que é uma lembrança”, afirma o psicanalista Leite Netto.

Alex Primo discorda: “As pessoas acham loucura escrever no perfil de alguém que morreu, porque o destinatário não está lendo. Mas talvez o destinatário seja a própria pessoa que escreve, para manter o que ela tem: a memória da pessoa que perdeu.”

O abraço não acontece na tela e é precisamente a possibilidade de prestar solidariedade sem comparecer fisicamente que faz muita gente achar a internet uma boa ferramenta para viver os constrangimentos da morte. “As pessoas dizem ter dificuldade de lidar com o sentimento [da perda], querem desabafar, mas não conseguem falar cara a cara. Para elas, falar da morte no ‘Face‘ é um alívio”, diz Viviane Lima, a criadora de “Lágrimas no Céu”, página do Facebook que reúne pessoas que estão lidando com perdas. A página foi criada para um estudo que Lima faz sobre a morte na internet. Em sua pesquisa, ela tem visto que a maioria se sente mais à vontade para falar do assunto na rede do que “ao vivo”. “E isso por dois motivos: o fato de não precisar ficar cara a cara com alguém que está sofrendo e a chance de atingir outras pessoas, que você nem conhece, que estão passando pelas mesmas coisas.”

Exibir a dor é uma forma de chamar a atenção para si. “Falar de morte e sofrimento é algo que mobiliza. Quem está sofrendo se sente bem em ser alvo de compaixão, mesmo que virtualmente”, diz o psicanalista Leite Netto. A possibilidade de os posts sobre a pessoa querida que morreu serem replicados e atingirem qualquer um também é um desafio para quem vai postar. “Podem ser publicadas coisas que causem danos à imagem tanto da pessoa perdida quanto da pessoa enlutada”, diz Kovács. O risco não é grande, segundo quem viveu o luto on-line, como o escritor José Ruy Gandra, que teve o post sobre a morte do filho replicado viralmente. “No Facebook, as pessoas se colocam mais, mas querem mostrar o que têm de melhor, não de pior. É mais fácil e mais comum que demonstrem a compaixão.”

Link – http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1120514-luto-compartilhado-e-novo-fenomeno-nas-redes-sociais.shtml Fonte: Folha.com