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Transtornos mentais crônicos | vídeo

By Bruno Trindade

October 03, 2018

Ainda pouco compreendidos e, talvez por isso, muitos estigmatizados pela sociedade, os transtornos mentais crônicos consistem em quadros que precisam ser tratados com cuidado, olhando a pessoa não apenas como um doente, mas alguém que tem capacidades, sentimentos e, principalmente, possibilidades de viver bem.

Na palestra “Lidando com pacientes crônicos”, a psiquiatra Livia Castelo Branco falou sobre o tema, abordando aspectos como o que configura e o que ocasiona uma cronificação, quais as consequências desse quadro para o paciente, família e sociedade, e quais as formas de tratamento.

Assista a palestra completa:

CARACTERÍSTICAS

A doença mental crônica é caracterizada pela pelo seu caráter persistente. Mesmo quando tratado, o quadro crônico já não responde tão bem às diversas terapêuticas, inclusive aos medicamentos, deixando o paciente sempre com a presença de algum sintoma.

Entre os transtornos mentais, existem os transtornos do neurodesenvolvimento (como autismo, retardo mental), que são essencialmente crônicos – o paciente já nasce e passa a vida com aquela doença. Existem outros transtornos mentais que aparecem ao longo da vida e que também se relacionam diretamente com aspectos neurológicos, mais relacionados ao desgaste dessas estruturas, tal qual as síndromes demenciais como o Alzheimer e a demência frontotemporal. Além disso, transtornos mentais mais comuns, como esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, transtornos de ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), podem se tornar crônicos com o passar dos anos, devido a tratamentos tardios, negligenciados ou outras condições do quadro.

“Então, no final das contas, a maioria dos transtornos mentais pode cronificar, ou seja, pode ser uma doença que vai ficar bastante tempo na vida da pessoa. O que a gente faz é tratar para que a pessoa melhore e para que ela viva normalmente. Em alguns casos vai ter cura, outros casos não, mas tratamos para que a pessoa viva bem com aquela doença”, destaca Livia Castelo Branco.

 

COMO OCORRE A CRONIFICAÇÃO

São diversos os fatores que podem ter influência para que uma doença mental se torne crônica. Alguns deles são de base genética, outros estão relacionados à história de vida da pessoa – se ela teve mais traumas, por exemplo -, outros tem a ver com a personalidade do indivíduo, como ele lida com fatores estressores ao longo da vida.

“Tudo isso vai influenciar na gravidade do transtorno mental. Mas, uma coisa que é muito importante é a adesão irregular. Ou seja: o paciente que não faz o tratamento adequado, é prescrito o medicamento e ela não toma de forma adequada. Isso faz com que a doença se torne cada vez mais grave e precise de doses cada vez mais altas de medicação”, explica a médica.

Em alguns casos ocorre um processo de refratariedade, ou seja, o paciente não responde ao tratamento como esperado, o que pode estar associado a diversos fatores, como a gravidade daquele quadro ou até mesmo a forma do organismo metabolizar o medicamento.

“Tem gente que toma dipirona para uma dor e aquilo é como água, precisa de algo mais forte – isso também acontece nos transtornos mentais. Então, dependendo da forma que a pessoa metaboliza aquelas medicações, se age muito rapidamente e sai do corpo, isso pode acontecer”, completa.

A psiquiatra destacou, ainda, o problema da desassistência em saúde mental no Brasil, que se relaciona com vários aspectos, desde a falta de estratégias para esses pacientes até o preconceito, que muitas vezes leva a desistência do tratamento.

“Também temos uma questão que vem ocorrendo nos últimos anos que é o fechamento dos hospitais psiquiátricos. Existe uma luta antimanicomial – e sabemos realmente que o modelo assistencial anterior era inadequado, no sentido de que não se dava um tratamento individualizado para aquele paciente -, mas o que ocorreu foi  o fechamento dos hospitais sem que houvesse uma estratégia que funcionasse fora do hospital psiquiátrico”, diz.

 

REPERCUSSÕES DO TRANSTORNO MENTAL CRÔNICO

Os casos de transtornos mentais crônicos muitas vezes estão associados a uma redução das atividades diárias e do auto-cuidado. A pessoa deixa de trabalhar, não consegue mais produzir da mesma forma, deixa de ir ao mercado, manter a higiene, ligar para um parente no dia do aniversário, gerir as suas finanças e muitos outros aspectos do dia-a-dia que terminam prejudicados. Isso leva a prejuízos nas relações sociais e familiares, em função de sintomas como irritabilidade, agressividade e pouca participação nas tarefas diárias.

Livia Castelo Branco destaca que é muito comum o descuido com a saúde em geral. Os pacientes não conseguem manter os cuidados clínicos e deixam de realizar exames de rotina, consultas, levando a um agravamento das doenças que carregam.

“Tudo isso gera uma dificuldade muito grande na autonomia do paciente. Ele já não tem condições de trabalhar, tem dificuldade de gerir as finanças e a casa e de cuidar de sua saúde e higiene. Ele começa a precisar de mais cuidados. A família muitas vezes pode demonstrar reações como raiva, medo ou vergonha por comportamentos inadequados. Assim, pode ocorrer a segregação social, com as pessoas próximas se afastando”, alerta a médica.

Muitas vezes esses pacientes se tornam vulneráveis a golpes e acidentes, por perderem a noção de perigo. Em função da agressividade, que também é consequência dos problemas mentais, pode ocorrer episódios de violência gratuita, viver em situação de rua, além de suicídio e overdose nos casos relacionados à dependência química.

“Os transtornos mentais também reduzem a expectativa de vida. Uma pessoa que fuma, tem sua expectativa de vida reduzida de 8 a 10 anos, mas quando falamos de depressão, reduz de 7 a 11 anos, ou seja, semelhante ao tabagismo. A esquizofrenia reduz de 10 a 20 anos, e a dependência química mais ainda, por conta dos problemas clínicos relacionados”, pontua a especialista.

 

EVOLUÇÃO DAS DOENÇAS

Normalmente, as doenças mentais crônicas apresentam um surto inicial, depois a tendência é se manterem estáveis, mas pode haver uma piora lenta e progressiva. Por exemplo: casos demenciais são doenças progressivas. Então, a tendência é que se agravem ao longo do tempo.

Podem ocorrer, também, episódios de agudização, um período de piora, que com o tratamento volta a melhorar. Esses episódios vão ocorrer com ou sem fatores desencadeantes, que podem ser alterações de medicação, fatores emocionais (como a perda de alguém amado), algum problema social, abandono, questão financeira, uso irregular da medicação ou, ainda, a própria doença com seus altos e baixos.

 

TRATAMENTO MULTIDISCIPLINAR

O tratamento, de forma geral, considera em primeiro lugar a assistência multidisciplinar. Neste ponto, a psiquiatra enfatiza que o remédio é uma parte do tratamento, mas não funciona sozinho.

“Além dele, é importante o acompanhamento terapêutico, que é um profissional especializado que vai estar ao lado do paciente nas atividades do dia-a-dia, como autocuidado, higienização e solução de problemas. Também há a terapia ocupacional, que aborda questões específicas, como dificuldades motoras, cognitivas, de memória, ajudando a organizar a rotina da pessoa. Em alguns casos, é importante a fonoaudiologia para sanar dificuldades de fala, deglutição, mastigação, além da fisioterapia”, explica.

Outro ponto essencial é a psicoterapia, que ajuda no autoconhecimento, fazendo com que a pessoa descubra porque se comporta daquela forma, quais são os gatilhos que a levam a se sentir pior, como lidar com seus problemas e se colocar de outras formas. A atividade física também faz parte do tratamento, além de cuidados básicos com a qualidade de vida – dormir bem e se alimentar de forma balanceada.

Há estudos científicos que apontam que isso diminui a atividade inflamatória, melhora a qualidade cardiovascular, previne diversas doenças e, além disso, melhora o estresse”, sublinha a psiquiatra.

ASSISTA AO VÍDEO: RESIDÊNCIA TERAPÊUTICA E MORADIA ASSISTIDA

 

OBJETIVOS

O objetivo das intervenções em primeiro lugar é a redução de sintomas, e o medicamento é muito importante para combater sintomas como insônia, agressividade, ansiedade, tensão, alucinações (auditivas e visuais), entre outros.

O tratamento também se volta para a melhora dos comportamentos disfuncionais e o estimulo à individualidade e independência. O aperfeiçoamento de capacidades também faz parte, por meio da terapia ocupacional, percebendo quais são os talentos da pessoa e estimulando.

“O objetivo é mostrar que dentro daquele indivíduo existem histórias, preferências e gostos que podem ser bem explorados. Quando a gente fala no tratamento de um transtorno mental crônico a gente não está falando de um fim de linha, e sim de um novo olhar para um novo momento de vida, em que a gente vai estimular as capacidades da pessoa e olhar aquele indivíduo de outra forma, para que ele tenha a melhor qualidade de vida possível”, finaliza Livia Castelo Branco.