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Discutindo a Sexualidade | Livia Castelo Branco e Alexandre Saadeh

Psiquiatria em Debate 23/10/2018

A sexualidade é um aspecto natural da vida, que pode nos trazer bem-estar e satisfação. Mas, esse ainda é um tema cercado de tabus, mitos e, por isso, muitas vezes o que deveria ser fonte de prazer acaba se tornando um gatilho para o sofrimento e o adoecimento.

Debater diferentes aspectos sobre como ter uma vida sexual mais plena e saudável foi o objetivo do Psiquiatria em Debate de julho, com o tema: “Discutindo a sexualidade”. Essa edição do evento trouxe como palestrantes Livia Castelo Branco, psiquiatra da Holiste, e Alexandre Saadeh, psiquiatra e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

O encontro foi mediado pela psiquiatra Fabiana Nery, que lembrou a complexidade e necessidade do aprofundamento desse debate.

“O objetivo não é esgotar o assunto, mas instrumentalizar as pessoas para que possamos entender melhor, cuidar e acolher esses pacientes que sofrem por conta de questões associadas à sexualidade e ao gênero”, destacou Fabiana.

Assista o vídeo do evento:

Sexo e Sofrimento

Lívia Castelo Branco abriu o debate com a palestra “Sexo e Sofrimento”, onde abordou as dificuldades em se falar sobre sexo e dos sofrimentos que podem estar associados a esse aspecto da vida, destacando fatores sobre as parafilias – desejos sexuais persistentes que não estão associados à estimulação genital ou as preliminares da relação sexual.

“São práticas que não se tratam de transtorno se são realizadas entre seres humanos adultos e capazes de dar consentimento. É preciso haver consensualidade. Os transtornos parafílicos causam sofrimento ou prejuízo para o indivíduo ou para outras pessoas, pois são casos que geram situações nas quais não há consensualidade ou condições para que a outra pessoa possa escolher livremente”, destacou.

A psiquiatra também abordou a disforia de gênero e o preconceito em relação à transexualidade, contando a história da primeira transexual que passou por cirurgia de mudança de sexo no Brasil, Waldirene, em 1971.

“Quando falamos em saúde sexual, estamos falando também em poder ter relações sexuais prazerosas e seguras, livre de coerção, de discriminação e de violência. A redução do preconceito melhora a sensação geral de bem-estar do indivíduo com a sexualidade”, completou Livia Castelo Branco.

No corpo errado?

Na segunda palestra da noite, o psiquiatra Alexandre Saadeh abordou o tema “No corpo errado?”, falando sobre transexualidade, tema ainda polêmico e cercado de preconceitos. Ele salientou que, nos últimos anos, o interesse pelo tema tem aumentado, o que é positivo para minimizar o sofrimento de transgêneros através de atendimento adequado. Alexandre Saadeh pontuou os conceitos de identidade de gênero, orientação sexual e desejo sexual.

“Orientação sexual diz respeito ao objeto do desejo e da satisfação sexual. Se é alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto ou se não importa o sexo. Identidade de gênero é a noção que cada um tem de ser homem, mulher ou algo intermediário. As pessoas sabem sua identidade de gênero desde os 3 ou 4 anos de idade, quando se forma a consciência do eu. Então, é muito precoce e não tem uma explicação, é muito subjetivo. Por fim, o desejo sexual é noção do que lhe causa mais prazer”, detalhou.

Identidade de gênero e infância

A identidade de gênero se relaciona com três fatores: a biologia, a subjetividade e a cultura. A biologia está no como a pessoa nasce e se desenvolve, mas não dá conta de todas as questões que envolvem a sexualidade e o gênero. A noção de como a pessoa se identifica em relação ao gênero é subjetiva. A cultura, por sua vez, é variável conforme o local e época, mas traz marcadores de como uma sociedade identifica os gêneros masculino e feminino.

“A pergunta que ainda se faz é se a pessoa nasceu homem ou nasceu mulher. Não importa isso. Importa como a pessoa se coloca, como ela se sente.  Essas questões são ainda mais complexas quando envolvem crianças que se identificam com o gênero oposto ao biológico. Penso que o mais importante nesse sentido é podermos escutar as crianças. Isso vai trazer consequências tanto físicas quanto psicológicas para o adulto. Na fase adulta, nosso acompanhamento é reparador e, quando criança, é preventivo”, avaliou.

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