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Sobre pais, filhos e videogames | Vício em Games

Notícias 30/03/2018

“Distúrbio de Games” passou a ser considerado um distúrbio mental pela OMS.  O psicólogo André Dória traz um outro ponto de vista para o assunto e aborda a questão da permissividade e da culpa na relação dos pais com os filhos.  Artigo publicado na Revista Let’s Go Bahia.  Leia o artigo completo.


 

Em janeiro deste ano, o vício em jogos de videogame foi considerado um distúrbio mental pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A partir disso, a 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID) deve passar a incluir a condição sob o nome de “distúrbio de games”. A patologia deve ser caracterizada como um comportamento de vício em games, tão grave que leva a pessoa a preferir os jogos a qualquer outro interesse pessoal ou social.

Falando em termos práticos, a inclusão do “distúrbio de games” na classificação representa mais uma nova patologia incorporada ao rol dos transtornos mentais. Este número só cresce desde que se criou sistemas classificatórios como o CID e o DSM. É importante ressaltar que uma nova patologia nunca vem apartada de um tratamento químico, já que o CID é um dispositivo médico. Ou seja, não podemos descartar interesses econômicos sempre que uma nova patologia é “criada”, pois necessariamente haverá a prescrição de medicamentos, não necessariamente novos, para as novas doenças.

No entanto, reduzir essa questão somente a interesses econômicos seria também um equívoco. Há questões que dizem respeito à forma como as compulsões se apresentam na atualidade. A compulsão não é um fenômeno novo, as embalagens com as quais se apresentam é que são diferentes. Lembro, no começo de minha carreira, de uma mãe preocupada com a compulsão do filho adolescente pelo telefone. Ele passava horas a fio conversando com a namorada. Agora imaginemos um diagnóstico de vício em telefone e uma medicação para tratar desse “mal”. Me parece que o caminho é o oposto. Há algo que é da ordem da particularidade do caso a caso, que desloca alguma questão subjetiva para condutas compulsivas. Ou seja, não é a compulsão que diz algo sobre a pessoa, mas a pessoa que diz algo sobre sua compulsão. O drama é que esse algo não é claro à própria pessoa, o que por vezes pode tornar necessário a ajuda profissional.

É preciso cautela para identificar um comportamento patológico em relação aos jogos de videogame e eletrônicos, sobretudo porque a maioria dos usuários de videogame é composta por crianças e adolescentes.

Antes de chegar aos filhos, me interessaria pensar um pouco nos pais dos dias de hoje. Alguns pais dessa geração sentem-se culpados em impor limites por medo de deixarem de ser amados por seus filhos.

O pouco tempo restante por conta da correria da vida contemporânea se traduz numa convivência com os filhos muitas vezes marcada pela permissividade. Como se, sendo um pai ou mãe “bonzinhos”, o amor dos filhos estivesse garantido.

Antes a lei emergia da família como uma interdição que acabava por estimular a criação de algum movimento no sentido de contorná-la: estudar ou trabalhar para sair de casa mais cedo, por exemplo.  Hoje parece que o enunciado da lei familiar se inverteu: goze! Diante de pais que nos forneciam limites a saída poderia ser a rebelião e, consequentemente, a criação de um movimento que nos impulsionava para vida. Diante de pais que nos dizem: você pode tudo, o produto pode ser uma inibição paralisante diante da nossa incapacidade de, simplesmente, dar conta de tudo. Esse então seria um terreno fértil para o gozo autista das compulsões, sejam elas por telefone, videogames ou compras.

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Distúrbio de Games - Artigo André Dória

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